Foi Num Castelo

Era um castelo no alto de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, no meio da Mata Atlântica. Logo na entrada, havia uma pequena capela com lindos vitrais; no pátio, duas jaqueiras, lado a lado, formavam um excelente lugar para se sentar e apreciar a vista. Recebíamos visitas mais que especiais de tucanos, macacos-prego, borboletas, marimbondos, cobras e beija-flores. Nesse pátio, brinquei de pique (dos mais variados), fingi ser uma personagem de Harry Potter, joguei bola, peguei sol no frio inverno (ainda fazia frio em junho e julho), bordei muitos peitorais para o Auto do Boi Muleque Garboso, debati ideias filosóficas e ideológicas e sonhei, como eu sonhei.

No primeiro andar do castelo, havia um grande salão que era usado para reuniões, palestras, festas e debates. Nesse salão, conheci Violeta Parra, Frida Kahlo, Che Guevara, Victor Jara e Marielle Franco. Nesse salão, ouvi muitas histórias, de todas as naturezas possíveis. Histórias brasileiras, cariocas, latino-americanas, palestinas, africanas, indígenas, musicais, culturais, políticas, de guerra, de amor, de genocídio, de superação. Histórias que me faziam tocar em realidades muito diferentes da minha e povoavam o meu imaginário com presenças invisíveis, mas que influenciavam diretamente as minhas escolhas.

No segundo andar, havia várias salas e, dentre elas, uma que ocupávamos durante um ano inteiro. Eu tinha uma cadeira cativa, escolhida por mim, que ficava na primeira fileira e levemente virada na diagonal (nunca gostei de seguir as linhas retas). Gostava de sentar na frente, pois tinha a impressão de que, assim, poderia entrar ainda mais nas histórias que eram contadas durante 45 minutos. Falavam de Newton, Darwin, Bhaskara, D. Pedro, Chica da Silva, Machado de Assis, Conceição Evaristo, Lavoisier, Tiradentes, Boaventura de Sousa Santos, Aristóteles, Marx, Anísio Teixeira, Pablo Neruda, Mujica e muitas outras figuras emblemáticas que ajudaram a construir o mundo como ele é hoje. Também ouvi sobre histórias coletivas, como a do Assentamento Terra Prometida, que tivemos o privilégio de visitar.

No terceiro andar, havia uma linda biblioteca com aquelas escadas douradas que deslizavam pelas paredes repletas de livros. Livros que também contavam histórias sobre a vida e sobre ideias de mundo. Frequentei essa biblioteca dos 7 aos 17 anos. Foram dez anos colecionando palavras escritas em papel.

Durante o primeiro semestre do ano letivo, nos preparávamos para um dos eventos mais importantes: a Festa Junina! Um evento cultural que, a cada ano, tinha um tema diferente de estudo e pesquisa. Por causa da Festa Junina, aprendi sobre os orixás, o coco de roda, o bumba meu boi, o maracatu, o cavalo-marinho, a quadrilha e a ciranda. Conheci Lia de Itamaracá, Mestre Humberto Maracanã, Dona Teté, Itaercio Rocha, Fernando Mendonça, Lucio Sanfilippo e tantas outras figuras importantes para o enriquecimento e a resistência da nossa cultura brasileira.

No dia da Festa Junina, os alunos preparavam apresentações artísticas que aconteciam dentro da quadra poliesportiva. A mesma quadra onde aprendi a jogar futebol, vôlei, basquete (esse, mais ou menos), handebol, queimado e pique-bandeira. Foi nessa quadra que desenvolvi muito da minha coordenação motora e das minhas habilidades físicas. Nessa quadra, me senti capaz de correr, arremessar uma bola, defender um gol, competir e colaborar com meninos e meninas. Me senti capaz de fazer parte tanto do time feminino quanto do masculino. Nessa quadra, aprendi que, quando a gente trabalha em equipe, consegue conquistar o que quer. E aprendi isso não só praticando esportes coletivos, mas também secando, com um rodo, a água da chuva que se acumulava no chão e não nos permitia ter a aula de Educação Física (uma das mais esperadas da semana).

Frequentei esse castelo por dez anos. Por dez anos, ouvi, vivi e contei histórias. Esse castelo foi minha escola, que eu também chamei de casa. Ele foi o contorno das minhas ideias, das minhas escolhas, dos meus sonhos individuais e coletivos. Nele, completei o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, me formei enquanto cidadã, aprendi a falar, a ler, a escrever, a debater, a defender, a lutar, a gritar, a proteger, a duvidar, a perguntar, a me informar, a escolher, a sonhar: por mim e pelo coletivo.

Mas o castelo sozinho não poderia me proporcionar tamanha grandeza de experiências. Foram as pessoas que dividiram aquele espaço comigo: alunos, coordenadores, diretores, funcionários, PROFESSORES.

Professores.

Professores que plantaram sementes em mim e que seguem crescendo, cheias de vida. O que aprendi não ficou congelado no passado. Muito pelo contrário: ainda reverbera no presente.

Obrigada, meus queridos professores. Vocês fizeram de mim, também, professora.

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